segunda-feira, 21 de junho de 2010

Já não há ansiedade, agora ele segura uma palha, tira do bolso esfarrapado o fumo, que enrola com dedos hábeis e tranquilos.
Não sabe que horas são e muito menos as notícias do dia.
Coloca o cigarro na boca e o acende, vagarosamente, observando, como um rescém nascido, toda a funcionalidade do seu corpo, que após cinquenta anos ainda o surpreende.
Foram anos de luta, de crises, alegrias e tristezas.
Aos quinze se apaixonou.
A primeira paixão é como uma droga, nos provoca sensações indizíveis, e com o tempo nos leva à dependência ou à tolerância.
Mas então sentiu a angústia da abstinência.
Foram anos de lágrimas e saudades, palavra esta última que tem o inconveniente poder de nos devolver coisas, gostos, perfumes, beijos e amores. Que já não nos pertencem.
Mas o tempo voa, e esquecendo-se desta certeza reencontram-se, prometendo mutuamente nunca mais separar-se.
Então planejam o futuro, trabalham, constroem uma vida sobre sólidos alicerces. Que cedo ou tarde se desmancharão.
O homem trabalha duro quando coloca o coração no que faz, ou quando tem no coração um motivo para fazê-lo.
E o homem faz, trabalha, acumula riquezas e constrói palácios. Mas o tempo, senhor de todos os ciclos, determina que em certa manhã ele despertará e verá em cinzas tudo aquilo que um dia foi, inclusive a si mesmo.
A lenha úmida crepita na fogueira, que não perdoa, e transforma.
O olhar deste homem vai ao longe e alcança os últimos raios de sol que banham o alto da montanha.
Ele já não ouve a televisão e nem a algazarra das ruas, mas sim o cantar dos pássaros que se preparam para a noite que vem chegando.
Sentindo o cheiro do café, que esquenta no velho fogareiro, ele observa uma borboleta, que, com as asas desgastadas pelo tempo e pelo vento, já não consegue alçar voo.
Meu Deus!
Para que um novo dia nasça, é preciso que venha a noite.
E quando ela vier, que venha cheia de sonhos bons.
Sonhos onde ainda somos crianças e corremos pelos campos floridos e enfeitados de pássaros coloridos e dóceis.
E que depois de brincar sejamos acolhidos no seio de nossa mãe celestial, que nos acaricia o rosto com sua ternura infinita e, sorrindo, fala baixinho: Bons sonhos minha criança.

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